quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Índia e meus olhares

Compartilhar o seu olhar sobre um país no qual você se propôs a viver, mesmo que por seis semanas, não parece e, não é, de fato, uma tarefa simples. Não tenho pretensão acadêmica, não tenho dados, isso é apenas um ponto de vista. Contextualizando, estou e permanecerei em Delhi, mais especificamente em New Delhi, até dia 20 de janeiro de 2012. Cheguei dia 04 de dezembro de 2011, e, na realidade, fiquei em choque, sobretudo nos primeiros dias. O choque é tanto o cultural, conceito bem conhecido pela antropologia, quanto choque, sem conceituação exatamente acadêmica, provocado por encarar a difícil realidade que muitos indianos vivem, como a privação das necessidades básicas (teoricamente reservadas a um cidadão). Possivelmente, tais privações são mais extremas e com certeza em maior quantidade do que em comparação ao Brasil.
Nas ruas, vendedores de frutas, verduras, flores, ervas, roupas, cabelereiros, vacas, cachorros, ratos, motoristas de rickshaws (aquelas bicicletas que carregam pessoas e aqueles triciclos que não tem portas (confira no meu flickar), lutam diariamente pela sobrevivência. Provavelmente moram em favelas, ruas e já vi alguns morando dentro de seus rickshaws. A noite, compartilham o fogo de uma fogueira para cozinhar a alimentação diária, ou a “prasadam”. Essas pessoas normalmente não falam inglês, apenas o hindi. Aliás, em New Delhi vi com mais frequência pessoas falando inglês em regiões área de negócios, turismo, shoppings centers, cidades mais turísticas. Isso me surpreendeu. Acredito que a ausência do inglês pode ser o reflexo da falta de acesso a educação sistemática.

Entretanto, em Agra, cidade do Taj Mahal, vimos crianças falando um inglês muito bom, com menos daquele sotaque indiano inconfundível (influência do hindi, que tem uma pronunciação totalmente diferente). No caso da palavra “very” é pronunciada como “véri”. Sim, isso soa engraçado às vezes. Pareceu aquelas típicas crianças indianas autodidatas como visto em filmes indianos. Aliás, essas mesmas já são boas negociantes. Introduzem uma conversa informal, geralmente a primeira pergunta é: “you from?”, sim, as vezes eles não usam o auxiliar “do”.
Depois, tentam vender, e se você não aceita eles perguntam, insistentemente, “how much you pay”? ou se você diz que precisa pensar eles falam: “take your time”. Mas eles nunca permitem uma reflexão, e dizem: “pensar faz mal para a saúde”. Hahaha. Todavia, quando você compra eles falam: “sua felicidade é a minha felicidade”. Totalmente comum em cidades turísticas, especialmente em Agra, e Jaipur, onde visitei.

Na minha experiência aqui até agora, uma cidade turística não é necessariamente uma cidade mais bonita, arborizada, calma e limpa. Em New Delhi, por exemplo, existe a beleza dos templos, e a energia que eles transmitem, mas coexiste a poluição, árvores insuficientes. A sujeira está em todas as ruas, e consequentemente, o aroma às vezes não é agradável. Reciclagem não faz parte do cotidiano indiano. Aliás, segundo algumas conversas, não faz parte da Ásia de maneira geral. O transito é sempre caótico. Sempre. Aqui eles não usam setas, eles buzinam para avisar que estão passando. Todos disputam um espaço na cidade grande. No começo você fica louco, você não consegue acreditar, mas hoje em dia me acostumei, nem ligo quando buzinam e nem
saio da frente.


Isso pode parecer que os indianos são estressados. Absolutamente não. São calmos demais,
acredito que apenas no transito eles se manifestam dessa maneira, porque é difícil mesmo manter a tranquilidade. São, em grande parte, religiosos. As principais vistas: hinduísmo, islamismo e sikhismo (aqueles que usam turbantes). Acredito que, devido a isso, seja relativamente seguro viver aqui, passei por situações teoricamente perigosas se fosse comparada com o Brasil, mas aqui, nada me ocorreu. Dizem que é perigoso as vezes ser mulher aqui. Eu me senti incomodada com o fato. Os homens olham muito, iniciam uma conversa. Mas nada absurdo se comparar com os homens do Brasil, que na minha visão são mais abusados.

Aqui na Índia, existe muito, muito homem. Talvez essa seja uma explicação para eles serem
“chegadinhos”. No metrô, os homens não dividem os mesmos vagões com as mulheres, tem um aviso: “for ladies”. Fiquei boquiaberta quando vi. A cada seis vagões, pelo menos quatro são homens. E esses, sempre estão lotados, os da mulheres nem tanto. (Não é possível filmar ou fotografar nos vagões, o porque eu não sei, mas isso me faz ficar muito desconfiada). Nas lojas, nos restaurantes, nas fábricas que visitei, nas ruas, são os homens que trabalham. Aqui na casa que eu moro, são duas pessoas que limpam, um homem e uma criança de seis anos. Sim, seis anos, e, isso é comum por aqui. Muitas crianças perdem a infância para o trabalho.


Uma colombiana me contou que aqui na Índia, não é comum saber o sexo da criança antes dela nascer, e, quando alguém sabe e descobre que é do sexo feminino, é praticado o aborto ou infanticídio após o nascimento. Isso porque ter uma mulher significa muitos gastos, tanto para a sobrevivência normal, quanto para o casamento, pois as famílias pagam dotes para os maridos. Uma ação ilegal, mas ainda praticada. Assim, além dos homens serem em maior quantidade, percebemos uma dominação masculina. É muito comum ver as mulheres cobertas com seu sári (aquela roupa que parece um vestido). Não sabemos se todas usam devido a religião, ou é uma questão de tradição ou dominação. São aspectos para serem investigados. Também presenciei,
muitas mulheres com burcas, mais em Agra e Jaipur do que New Delhi.


Aqui, a tradição e a modernidade coexistem de maneira mais acentuada. Ao mesmo tempo que você visualiza mulheres com sáris, você vê meninas de calça, as vezes jeans. Mas, os uniformes escolares são quase sempre todos muito fechados, calças, lenços, blusas fechadas. Todavia, quase sempre é tudo muito colorido, embora, no shopping de New Delhi, city walk, muitas vestem roupas que nós ocidentais vestimos. As lojas tem uma predominância do preto, marrom, cinza.
Mas, quando visitei lá, não parecia que estava na Índia. Aliás, fui em casas noturnas totalmente ocidentais e, nem produtos nacionais eles vendiam. É aquela história que o que é de fora é melhor, chamado na academia de “etnocentrismo as avessas”.


A comida é absolutamente maravilhosa. Vegetariamos estão no paraíso. Salgados com pasta de vegetais, hambúrguer vegano, salsinha vegana, Paneer Masala (minha refeição predileta) e Masala Chai (meu chá predileto). São refeições criativas e sem culpa. Animais não são feitos para comer. De fato elas são apimentadas, bem apimentadas. Mas, já me acostumei. Os doces são cobertos por castanhas, pistaches e muito, muito açúcar.







Dessa maneira, foi possível perceber neste pequeno “ensaio” o quanto é difícil falar da Índia, sobretudo quando não se estuda sobre. Assim, após meus “choques”, hoje estou em uma Índia que aprecio, sobretudo as excentricidades orientais. Curiosa em ver e conhecer mais. Gosto de estar aqui, e acho que aqui que eu devia ter vindo. Conheci pessoas maravilhosas, e, percebi, que as pessoas não escolhem a Índia a toa. Aqui somos levados a pensar sobre nós mesmos, sobre a humanidade.
Gislene

Um comentário:

  1. Adorei ler um pouco sobre suas experiências Gi! Parece que você está conversando comigo (coisa que sinto falta, rs). Essa mistura de tradição com modernidade é demais, não? Pude ver o mesmo em Londres, claro que não foi com a mesma intensidade que você, que está em um país oriental. Aproveite muito e continue postando por aqui, pq eu vou conferir! love u

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